O caminho é negativo
- Diogo Nunes

- 28 de jun.
- 3 min de leitura
Depois de perguntar "Quem sou eu?", surge uma dificuldade inevitável.
A mente tenta responder.
Ela procura uma definição, um conceito, uma explicação.
Mas existe um problema.
Aquilo que você realmente é não pode ser reduzido a uma ideia.
A mente consegue pensar sobre muitas coisas, mas não consegue transformar a Consciência em um objeto de pensamento.
Por isso, o caminho do verdadeiro autoconhecimento não consiste em definir quem você é.
Consiste, primeiro, em reconhecer tudo aquilo que você não é.
A INVESTIGAÇÃO POR NEGAÇÃO
Sempre que tentamos responder à pergunta "Quem sou eu?", a mente oferece respostas.
"Sou professor. Sou pai. Sou tímido. Sou ansioso. Sou inteligente."
Mas todas essas respostas descrevem apenas características, funções, estados ou experiências.
Nenhuma delas descreve quem percebe tudo isso.
É por isso que, no Yoga, a investigação segue um caminho negativo.
Em vez de afirmar quem somos, começamos negando aquilo que claramente não somos.
Se algo pode ser percebido, então não pode ser aquilo que percebe.
Se você observa o corpo, então não é o corpo.
Se observa os pensamentos, não é os pensamentos.
Se observa as emoções, também não pode ser as emoções.
A investigação avança retirando identificações, uma após a outra.
MICHELANGELO E A ESTÁTUA DE DAVID

Perguntaram ao Michelangelo como ele havia criado uma das esculturas mais extraordinárias da história: a estátua de David.
Sua resposta foi simples:
"Eu olhei para o bloco de mármore e vi David. Depois retirei tudo aquilo que não era David."
Essa imagem nos ajuda a compreender profundamente o caminho do Yoga.
Michelangelo não precisou acrescentar mármore. David já estava ali.
O trabalho consistiu apenas em remover o excesso.
O QUE REALMENTE PRECISA SER REMOVIDO?
Ao longo da vida acumulamos identidades.
Acumulamos histórias. Acumulamos opiniões sobre nós mesmos. Acumulamos medos.
Desejos. Traumas. Papéis sociais. Conquistas. Fracassos.
Pouco a pouco, passamos a acreditar que somos tudo isso.
Mas nada disso permanece.
Tudo muda. Tudo aparece. Tudo desaparece.
O Yoga não propõe acrescentar uma nova identidade.
Propõe retirar todas aquelas com as quais você se confundiu.
Assim como Michelangelo retirou tudo aquilo que não era David, a investigação interior vai removendo cada identificação até que permaneça apenas aquilo que nunca precisou ser criado.
A PAZ NÃO NASCE DO ACRÉSCIMO
Vivemos acreditando que nos falta alguma coisa.
Mais conhecimento. Mais experiências. Mais reconhecimento. Mais dinheiro. Mais realizações. Mais segurança.
Mas observe.
Foi justamente essa mente, sempre procurando mais, que também criou a sensação de insuficiência.
Ela busca constantemente aprovação.
Tem medo da rejeição.
Quer mais estímulos.
Mais prazer. Mais respostas. Mais certezas.
No entanto, tudo aquilo que ela acumulou até hoje não foi suficiente para produzir a paz duradoura que procura.
Porque a paz não é resultado de adicionar nada. É consequência de retirar.
O SILÊNCIO REVELA AQUILO QUE PERMANECE
O convite do Yoga é surpreendentemente simples.
Pare.
Fique quieto.
Observe.
Solte, por alguns instantes, todas as definições que sua mente sustenta sobre quem você é.
Largue o que você está agarrando.
Não tente criar uma nova versão de si mesmo.
Não tente construir uma identidade mais espiritual.
Apenas permita que todas essas construções se dissolvam.
Quanto mais profundamente você relaxa dentro de si, menos necessidade existe de sustentar imagens, conceitos ou histórias.
E, nesse espaço de silêncio, algo começa naturalmente a aparecer.
Não porque foi criado.
Mas porque sempre esteve presente.
O PEIXE PROCURANDO ÁGUA
Somos como um peixe no meio do oceano procurando água para ser feliz.
Ele nada de um lado para outro tentando encontrar água sem perceber que já vive completamente mergulhado nela.
A água está ali, em todos os lugares, somos feitos de água, a água está dentro e fora de nós e nós não conseguimos perceber isso.
Assim acontece conosco.
Buscamos paz. Buscamos plenitude. Buscamos felicidade.
Como se tudo isso estivesse em algum lugar distante.
Não se trata de obter algo que ainda não temos.
Trata-se de reconhecer aquilo que sempre esteve presente.
O CAMINHO DO YOGA
O despertar de Siddhartha Gautama, o Buda, não aconteceu porque ele reuniu mais conceitos.
Aconteceu porque os conceitos deixaram de ocupar o centro da experiência.
A mente silenciou.
E, nesse silêncio, aquilo que sempre esteve presente tornou-se evidente.
O Yoga aponta exatamente para essa direção.
Não para acrescentar. Mas para retirar.
Não para construir uma nova identidade.
Mas para reconhecer aquilo que permanece quando todas as identidades se calam.
Porque a paz que você procura não está naquilo que ainda falta.
Ela repousa na quietude que você ainda não permitiu.
Sente-se. Silencie. Medite.

Quanta sabedoria neste convite!
E parece que não é difícil!….
Vou aceitar esse convite para me conhecer melhor!
Muito obrigada, Diogo!