Você não é quem pensa que é
- Diogo Nunes

- 7 de jun.
- 4 min de leitura
A ideia que você tem sobre quem você é determina a forma como você vive.
Aquilo que você acredita ser influencia como se sente. Como se sente influencia a forma como percebe o mundo. E a forma como percebe o mundo determina a maneira como reage, escolhe, se relaciona e conduz a própria vida.
Dependendo de quem você acredita que é, você vai ter uma sensação e um padrão de reação ao mundo.
Por isso, existe uma pergunta que talvez seja mais importante do que todas as outras:
Quem é você?
Pode parecer uma pergunta simples, mas raramente paramos para investigá-la de verdade.
Passamos boa parte da vida ocupados com trabalho, estudos, relacionamentos, projetos, responsabilidades e preocupações. A mente está constantemente voltada para aquilo que acontece fora de nós.
Enquanto isso, a pergunta mais fundamental permanece esquecida.
Quem sou eu?

AS RESPOSTAS QUE PARECEM RESPONDER, MAS NÃO RESPONDEM
Se eu lhe fizesse essa pergunta agora, provavelmente você responderia com seu nome.
Talvez falasse sua idade, profissão, nacionalidade, formação, gostos, qualidades, defeitos, sonhos ou histórias de vida.
Mas observe com atenção:
Tudo isso descreve aspectos da sua experiência. Nada disso responde verdadeiramente quem você é.
Seu nome foi dado a você.
Seu corpo mudou inúmeras vezes desde o nascimento.
Seus pensamentos mudam constantemente.
Suas emoções surgem e desaparecem.
Suas opiniões e desejos mudam.
Até mesmo a ideia que você possui sobre si mesmo muda ao longo da vida.
Então surge uma questão inevitável:
Se tudo isso muda, o que permanece?
O OBSERVADOR E O OBSERVADO
Faça uma pequena experiência.
Olhe ao seu redor.
Seus olhos enxergam objetos, formas, cores e pessoas.
Agora tente fazer com que seus olhos enxerguem a si mesmos.
Não só leia o que eu te peço.
Realmente tente fazer com que o seu olhe enxergue ele mesmo.
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É impossível. Não há como fazer com que o seu olho enxergue a ele mesmo.
Para que exista observação, são necessárias duas coisas:
Algo que observa e algo que é observado.
Aquilo que observa é necessariamente diferente daquilo que é observado.
Por isso os olhos podem ver tudo, menos a si mesmos. O seu olho só pode observar aquilo que não é ele.
O observador não pode ser aquilo que é observado. Tudo aquilo que pode ser observado, não é o observador.
Esse princípio simples pode ser aplicado à investigação de quem você é.
Tudo aquilo que pode ser percebido por você não pode ser aquilo que você é.
Se você percebe seu corpo, então você não pode ser apenas o corpo. Se percebe pensamentos, então você não pode ser os pensamentos. Se percebe emoções, então você não pode ser as emoções.
Se percebe estados mentais, memórias e sensações, então também não pode ser nenhuma dessas coisas.
Porque todas elas aparecem diante de você como objetos de percepção.
E aquilo que percebe é diferente daquilo que é percebido.
QUEM PERMANECE QUANDO TUDO MUDA?
Volte novamente à pergunta:
Quem é você?
Não responda imediatamente.
Observe.
Toda resposta que surge é um pensamento.
E qualquer pensamento pode ser observado.
Portanto, também não é você.
É aqui que a investigação começa a apontar para algo mais profundo.
Existe uma presença silenciosa que observa o corpo, os pensamentos, as emoções e as experiências acontecendo.
Ela estava presente quando você era criança.
Permaneceu durante a adolescência.
Permanece agora.
Os conteúdos da experiência mudaram inúmeras vezes.
Mas a capacidade de perceber continua presente.
No Yoga, é essa presença consciente que se torna o verdadeiro objeto da investigação.
A PERGUNTA QUE A MENTE NÃO CONSEGUE RESPONDER
Existe algo importante a compreender.
A pergunta "Quem sou eu?" não é uma pergunta destinada ao pensamento.
Ela não pode ser respondida por meio de raciocínios, teorias ou definições.
Toda resposta produzida pela mente continua pertencendo ao campo dos pensamentos.
E pensamentos podem ser observados.
A investigação proposta pelo Yoga segue outra direção.
Não consiste em acumular respostas.
Consiste em silenciar as respostas.
Não consiste em construir uma nova identidade.
Consiste em perceber aquilo que permanece quando todas as identidades se dissolvem.
Por isso, essa investigação não acontece através da reflexão intelectual.
A única resposta real é jogar fora todas as respostas e mergulhar no silêncio meditativo.
Quando a mente se aquieta, mesmo que por alguns instantes, torna-se possível reconhecer a presença que sempre esteve ali observando tudo.
UM PEQUENO EXPERIMENTO
Faça o seguinte exercício agora comigo:
Pare o corpo por alguns instantes. Permita que ele fique completamente imóvel.
Feche os olhos.
Faça uma inspiração profunda. Segure o ar o quanto for possível.
Observe o que acontece.
Quando o corpo, os olhos e a respiração diminuem sua agitação habitual, surge naturalmente um espaço maior para a observação.
Você começa a perceber os movimentos da mente.
Percebe pensamentos surgindo.
Emoções aparecendo.
Sensações acontecendo.
E, pouco a pouco, começa a notar algo ainda mais importante:
A presença que observa tudo isso.
O INÍCIO DA LIBERDADE
Quanto mais você observa, menos se confunde com aquilo que observa.
Pensamentos continuam existindo. Emoções continuam surgindo. Experiências continuam acontecendo. Mas elas deixam de definir quem você é
Existe uma distância saudável entre o observador e o observado.
E é justamente dessa distância que nasce a liberdade.
Ao reconhecer-se como a própria consciência que observa, os pensamentos e emoções perdem parte do poder que exercem sobre você.
Não porque desaparecem.
Mas porque você deixa de acreditar que eles são você.
E, quando essa confusão diminui, o sofrimento também diminui.
Talvez o verdadeiro autoconhecimento não seja descobrir algo novo sobre si mesmo.
Talvez seja reconhecer aquilo que sempre esteve presente, silenciosamente, observando toda a experiência da sua vida.
E é exatamente essa descoberta que está no coração do Yoga.

Texto enriquecedor, nos traz reflexões pontuais para o nosso auto-conhecimento. Obrigada, Diogo!
Texto ótimo, com uma excelente reflexão.
O silêncio é um dos caminhos mais curtos a nos levar perto de nós mesmos!
Gostei MUITO dessa reflexão. Nas minhas aulas de yoga, temos praticado esses momentos de meditação.
Mas esse caminho apresentado, neste texto, para chegarmos lá me abriu horizonte que aumentou minha compreensão do processo de auto-encontro!
MUITO obrigada, Diogo!